Pés marchando sobre o chão quente dos cascalhos,
nas noites frenéticas da existência,
Respirando o lodo da ignorância,
o frenesi das conversas sem remorso.
A pintura escamoteada da realidade,
na ausência dos bastidores do existir
A carne sem manifesto,
embalando em som murmurante o lanche
que já não é só uma voltinha nas ruas de casa.
A flor branca de alvura ainda luta
no copinho de água que vovô coloca aos pés da santa,
nas memórias de vovó na hora da janta,
nos sítios arqueológicos.
Resiste a flor nos novembros negros,
na ida e na volta do trabalhador.
Sem reparação, a favela cresce,
permeada pela injustiça histórica
Luta a flor na guerra climática.
METRÓPOLIS ASSASSINA
Rasguei meus versos em rascunhos
Com o coração acabrunhado
Cercado à ponta de fuzil
Rodeado de homens com colete
Ao som de tiros, balas e foguetes
Querendo silenciar minha rima
Que é tímida e solvente,
Declina a dor
Sem agudos ou falsetes
Enquanto a morte
Cala a vida para sempre.
As ruas sequestradas
Os becos tomados
Processo cria ativo
Quarteto maculado.
— Olha a bala!
— Perdeu! Perdeu!
— Vai tomar tiro!
— Fela da puta!
Os gritos de guerras,
As palavras de ódio,
Quem tem ouvidos que ouça
O poema assombrado
As crianças? Nada! Quem se importa?
Não tem psicóloga, é coisa de rico
Sem tenda de abrigo
Os mortos não se enterram sozinhos,
Mas a poesia é esculpida.
FAVELADO
Quando cheguei nessa terra
Desprovida de cuidados
Arranquei o lodo das pedras
Podei das árvores o galho
Capinei com as mãos o mato
Arejando todo o solo
Depositei os meus cuidados.
Adubando de esperança
Desviei com vala a lama
No terreno que era infértil
Fui construindo o meu postal
Nos primeiros grãos brotados
Um enigma social.
Entre as árvores minha casa
Integrada ao mei-ambiente
Começada como de taipa
Com minha mãos somente
Em alvenaria me fez contente
Quando da varanda eu avistava
A beleza da bahia difenrente.
O estado então entrou
Cobrando impostos
Negativando nomes
Derrubando nossas casas
Massacrando nossa gente
Sem trabalho ou assistência,
Me virei como pude
Me formei em resistência.
As estrofes foram organizadas para preservar a leitura do PDF original.