Eis que uma nota controversa
atravessou os compassos
e a orquestra parou.
Mas não tive alternativa
senão seguir firme em meu solo
e tocar sobre o amor.
Tocar em desafino
como se eu pudesse
amar você amando o seu amor.
Tocar em sol maior,
amar em dó menor,
com pausas e sem fervor.
Tocar de improviso
e, entre um bemol e um sustenido,
amar o riso e a dor.
Tocar, por fim, com devoção
como quando se ama uma música
de outro compositor.
INSOLÚVEL
Uma lágrima entornou
feito um copo d´água
sobre o poema
que eu rascunhava.
A caneta derrapou
na superfície molhada.
Meus sentidos, em refração,
embaixo d’água.
Socorro, Adélia
ainda são quatro da madrugada
e eu já aqui, no meu peito,
com essa faca.
Uma lágrima desabou
feito chuva ácida
sobre as mudas de sonhos
que eu adubava.
Restei eu, em pó
e misturada
sem solução, neste poema,
embaixo d’água.
A NATUREZA DA ÁGUA
Eu vim, eu sei.
Rasguei o chão
Criando caminhos
Preenchi cada vão
comigo.
Cresci, inflei
Ganhei força
E arrastei o chão
comigo.
Quis ficar
Fundir-me às raízes
Transmutar o desejo
em permanente revolução.
Desaguar, porém
não era destino
E, no ritmo do ciclo,
me dissipei.
Perdão, coração,
minguei…
Saiba, secar
é a dor maior de um rio.
Etérea, agora,
e invisível
existo sem caber
em nenhuma medida.
Nutro o tempo
com o sonho possível
de me transformar
para re-inaugurar a vida.
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