Alan Pellegrino

3 poemas nesta seleção

DESENHO DE DEUS

Quando escrevo um poema,
sinto que tenho um pincel na mão.
É como se Deus me desse um bastão
                                         [e me autorizasse a desenhar.

Sempre que escrevo um poema,
sinto que posso voar.
É como se Deus me desse asas
e me encoraja- se a saltar.

Só quando escrevo um poema,
sinto que estou em liberdade.
É como se Deus me desse as chaves
e dissesse para eu caminhar.

Toda vez que escrevo um poema,
posso voltar a ser menino.
É como se Deus me desse a argila
e permitisse eu me redesenhar.

Apenas quando escrevo um poema,
sinto que sou o criador.
É como se Deus acendesse com amor
                              [o brilho da lua que inspira o poeta.

A CASA

Meu poema é desconstruído,
parede sem chão.
Muro sem alvenaria
e sem fundação.

Gesto concreto,
palavra com sustentação.
Força do verbo encarnado
e da criação.

Chão que flutua no verso
e traz ilusão.

Porta e janelas abertas
pra inspiração.

Doce perfume das flores
sem exatidão.

Escada de incêndio
pra erguer a palavra do chão.

É pura imaginação
pra fazer flutuar.

Parede de cor encarnada
que inspira lutar.

É força da natureza
a nos despertar.

A casa feita de poema,
do verbo morar.

QUEM MASTIGOU AS ROSAS ENGOLE O CHORO

O estado estava armado,
Engatilhado
E apontado
Para a cara do sossego.

Deixou sem voz
Cento e vinte e uma mães
Do Rio de Janeiro.

O aparato militar para matar
Lava o morro de vermelho;
Matérias em jornais e capas de revista
Se espalhou no mundo inteiro.

O que já era complexo
Hoje nos deixa perplexos:
A mãe ter que subir o morro
Pra buscar o filho morto
Lá no alto do Complexo.

Paredão, alto escalão,
A polícia passa pano,
Mas o rubro tá no chão.

Diz que usou de inteligência
Pra entregar carnificina.

Se o filho não foge à luta,
É porque não têm opção.

Drone que lança granada,
Genocídio e opressão.

Põe tensão,
Morador
Quem mastigou as rosas engole o choro.

Serra da Misericórdia
Planta semente de discórdia.

Mães que choram pelo sangue dos seus filhos.
Olho por olho,
Dente por dente.

O homem irracional, policial,
Que mata gente.

Blindado,
Barricada,
Atolada,
A cabeça decepada.

E o morador quer proteção
Colhe negligência,
Violência e opressão
Da instituição.

Quem mastigou as rosas engole o choro.

Agonia medieval,
Cem homens de paraFAL.

Apostou no urso
E hoje vai dar zebra.
Árvores regadas com o sangue dos seus filhos

Não é mera coincidência:
Quem mastigou as rosas engole o choro.

Ruas tão silenciosas,
O vazio incomoda.

A cidade hoje parece ficção.

Carros em abandono,
Fios de alta tensão,
Cenas do apocalipse.

E quem perdeu seu filho
Engole o choro.

As estrofes foram organizadas para preservar a leitura do PDF original.

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