DESENHO DE DEUS
Quando escrevo um poema,
sinto que tenho um pincel na mão.
É como se Deus me desse um bastão
[e me autorizasse a desenhar.
Sempre que escrevo um poema,
sinto que posso voar.
É como se Deus me desse asas
e me encoraja- se a saltar.
Só quando escrevo um poema,
sinto que estou em liberdade.
É como se Deus me desse as chaves
e dissesse para eu caminhar.
Toda vez que escrevo um poema,
posso voltar a ser menino.
É como se Deus me desse a argila
e permitisse eu me redesenhar.
Apenas quando escrevo um poema,
sinto que sou o criador.
É como se Deus acendesse com amor
[o brilho da lua que inspira o poeta.
A CASA
Meu poema é desconstruído,
parede sem chão.
Muro sem alvenaria
e sem fundação.
Gesto concreto,
palavra com sustentação.
Força do verbo encarnado
e da criação.
Chão que flutua no verso
e traz ilusão.
Porta e janelas abertas
pra inspiração.
Doce perfume das flores
sem exatidão.
Escada de incêndio
pra erguer a palavra do chão.
É pura imaginação
pra fazer flutuar.
Parede de cor encarnada
que inspira lutar.
É força da natureza
a nos despertar.
A casa feita de poema,
do verbo morar.
QUEM MASTIGOU AS ROSAS ENGOLE O CHORO
O estado estava armado,
Engatilhado
E apontado
Para a cara do sossego.
Deixou sem voz
Cento e vinte e uma mães
Do Rio de Janeiro.
O aparato militar para matar
Lava o morro de vermelho;
Matérias em jornais e capas de revista
Se espalhou no mundo inteiro.
O que já era complexo
Hoje nos deixa perplexos:
A mãe ter que subir o morro
Pra buscar o filho morto
Lá no alto do Complexo.
Paredão, alto escalão,
A polícia passa pano,
Mas o rubro tá no chão.
Diz que usou de inteligência
Pra entregar carnificina.
Se o filho não foge à luta,
É porque não têm opção.
Drone que lança granada,
Genocídio e opressão.
Põe tensão,
Morador
Quem mastigou as rosas engole o choro.
Serra da Misericórdia
Planta semente de discórdia.
Mães que choram pelo sangue dos seus filhos.
Olho por olho,
Dente por dente.
O homem irracional, policial,
Que mata gente.
Blindado,
Barricada,
Atolada,
A cabeça decepada.
E o morador quer proteção
Colhe negligência,
Violência e opressão
Da instituição.
Quem mastigou as rosas engole o choro.
Agonia medieval,
Cem homens de paraFAL.
Apostou no urso
E hoje vai dar zebra.
Árvores regadas com o sangue dos seus filhos
Não é mera coincidência:
Quem mastigou as rosas engole o choro.
Ruas tão silenciosas,
O vazio incomoda.
A cidade hoje parece ficção.
Carros em abandono,
Fios de alta tensão,
Cenas do apocalipse.
E quem perdeu seu filho
Engole o choro.