CHAMADA DE EGUN
Sentado na parte baixa do porto eu anjo torto embria-
gado de pôr de sol sinto o cheiro das carreiras de ondas
com espumas brancas que se formam no mar e eriçam
os pelos das minhas narinas
Cada vela que se vai é uma esperança que se apaga
Cada vela de chegada traz uma brisa de esperança
Sereias perdidas catando guimbas de vida dos santos
nos altares catando guimbas meladas pelas infelicida-
des dos bares
Enquanto isso o amor passa arrastado e sufocado pelos
banheiros dos lupanares onde vampiros tímidos sugam
extasiados delicados absorventes de alta alvura
Sereias e Picassas em zonas de mil vidas naufragadas e
desgraçadas se reproduzem submetidas ao hedonismo
da fornicação celestial em cubos de cetim
A vida passa como um filme sem roteiro como a sinergia
dos gritos espetaculares e dos sincericídios nos orgas-
mos em fruição lembrando que baratas malandreadas
nunca atravessam galinheiros e amam a escuridão
Detonando o trapezista em cacos de improvisação, sem
fortuna, sem dinheiro na tensão e no tesão pelos aplau-
sos da indigníssima plateia de saco cheio e indiferente
urrando: “mete o pé daqui Medeia!”.
Boas novas nem pensar onde ser normal é se mastur-
bar e viver com dores de amores que são trituradas por
moinhos de paixões retidas pelo zíper que defende o
grilo falante
Ah! Coração! Que abrasa e delicia meus caminhos!
Na barra do vento do entardecer! É tudo tão morto! Mas
aqui no mausoléu tem silêncio e conforto
Estamos no tempo do tempo desta entidade estranha que
não olha para trás e segue louco em sua sanha mirando
sempre para o muro lá no fim do meu futuro encerrando
no escuro minha estrada que não acaba em mim
Meus olhos cansados olham nas brumas da eternidade e
observam um triste e desolado egun purgando ao relento
lamentando sua castidade
Roto e pobre, o egun sem orum segue vendido como um
goleiro após tomar um gol de placa, mas sendo cons-
ciente do seu ofício manda essa: “venha, já acabou! já é
hora! já é tempo! se despeça do tormento da prisão do
carbono! O trem das estrelas não espera!
Renasça para mim.
OLHAR DE FOLHETIM
DE NADA ADIANTA CHORAR O QUE PASSOU
O BRILHO DE OUTRORA O TEMPO LEVOU
SE PERDEU POR AÍ PELAS MADRUGADAS
VIELAS
ERROS FELIZES, CICATRIZES E OLHARES
DAS JANELAS
MARCAS DOÍDAS, MARCAS DA VIDA,
MARCAS DE AMAR
QUE O ROUGE TEIMA EM OCULTAR
MINHA CRUZADA EM SOLIDÃO ME LEVA
AOS BARES COM AFLIÇÃO
QUERO UM COPO AMIGO E UM CORPO AMIGO
UM TANGO ANTIGO E UMA DOSE
DE AMPARO COM UM BEIJO AMARO
FINGIR QUE POSSO AMAR NO ABANDONO DA VIDA
SIGO A SINA DA MULHER DE NINGUÉM
SOU MINHA, SOU SOZINHA, SEM DONO
SOU LIVRE NO PROPRIO ABANDONO
TRAGANDO HOMENS E CIGARROS
VERMUTES SECOS E BEIJOS GELADOS
HOMENS PUÍDOS, BEIJOS RASGADOS
DIGO SIM ÀS PROPOSTAS CARENTES
NÃO SEI PORQUE INSISTIR NO NÃO
SOMOS SERES ESTRANHOS,
CARENTES,
INDECENTES,
DIFERENTES
O ÁLCOOL ME INCENDEIA EM BRASA
E ME ENROSCO NO FOGO E NA DOR
DORES PRESENTES
PASSADO VADIO COM SUAS MARCAS
E FERIDAS DAS LUTAS DE CIO
FINJO PRAZER, SOU TEATRAL,
DIVIDO PÓ E PECADOS
NA DELÍCIA DO PRAZER MARGINAL
É TANTO REVÉS, SUBMUNDO E TORPOR,
É TANTA CARÊNCIA
QUE ATÉ PARECE AMOR
E QUANDO A AURORA ACORDA A CASA
SE ABRINDO RUBRA PARA O PALCO DO MUNDO
SURGE O NINHO DE AMOR ARREPENDIDO
CHEIRO DE DOR, DE ORGASMO BANDIDO
EM LÁGRIMAS FRIAS APAGO TEU CHEIRO,
CHEIRO DA FUMAÇA
DO TEU CIGARRO,
DAS TUAS MULHERES DA NOITE,
DA TUA BEBIDA RUIM
EU POBRE COLOMBINA EMBRIAGADA
VOCÊ PIERROT DE VIDA DOÍDA
SOU COMO A FÊNIX
QUE RESSURGIU DAS CINZAS
SUJA, DOLORIDA COMO UMA TRÓIA
CONQUISTADA E INCINERADA
DOMINADA POR UM RUDE E TOSCO
MENELAU COM SUA ESPADA PENETRANTE
MAS SOU FORTE, INVENCÍVEL, SOU MULHER
SOU A EVA
QUE CONDENOU OS HOMENS AO TRABALHO ÁRDUO
SOU A ALMA DO BAR,
SOU TEU BOTEQUIM, A FILHA DE CAIM
SOU O FALSO SORRISO QUE SEMPRE DIZ SIM
MAS MEU TRISTE AMIGO NUNCA ACREDITE
NA MINHA SUAVIDADE DE NINFA
NEM NO MEU OLHAR DE FOLHETIM.
DOSTOIEVSKI PASSEANDO NAS ESTRELAS
Silêncio e luto nas noites brancas de São Petersburgo.
Fiódor Dostoiévsky deixa o mundo dos vivos. O corpo
jaz hirto e solene na casa dos mortos onde crimes e cas-
tigos são perdoados e os demônios quedam exorcizados.
A gente pobre, o idiota e o jogador choram observando
o esquife que desce à tumba, quando a partir de então
será uma triste memória do subsolo, marejando os olhos
dos irmãos Karamazov. Os sons dos sinos enlutados
das catedrais cobrem a triste cidade, com um lamento
indescritível. Anunciam o fim da vida terrena do grande
pensador e o início de sua passagem ao mundo espiri-
tual. Fiódor enfim partiu livre e sem amarras na imen-
sidão do universo. É quando acontece a emancipação
do carbono, da casca de poeira de estrelas que limita
a frágil matéria humana. Viaja extasiado por nebulo-
sas, quasares, pulsares e aglomerados de galáxias. Em
sua trajetória surgem berçários de estrelas dançando
sobre a matéria escura, milhares de sóis iluminam sua
jornada, coroando o sonho de um homem místico que
considerava a morte uma história desagradável. Como
um grande inquisidor pergunta onde estarão os anjos?
A corte celestial? O paraíso onde celebra-se o reencon-
tro com os ancestrais? Como não encontrar a verdade
se a vida somente é suportável através da esperança
que a morte é apenas uma ilusão. Sua nova forma é
plasmática, sem densidade ou contornos definidos. A
nova consciência ultrapassa as leis bárbaras e toscas do
ínfimo conhecimento humano. Segue cruzando dimen-
sões, mundos paralelos, misteriosos buracos negros
com seus horizontes de eventos. Em sua fantástica via-
gem rejubila-se com a perspectiva de estar diante do
Dono de todo esse poder. Aquele velho, pesado e dolo-
roso mundo ficou para trás. Planeta Terra, território
de expiação e sofrimentos onde os humanos purgam
suas dores existenciais e seus desejos inconfessáveis
cobertos de fados e lamentos hostis. Na serenidade
da liberdade mais pura, ouve os acordes que soam nos
campanários do paraíso, onde o pensamento está livre
das limitações da matéria, dos julgamentos, dos duplos
comportamentos, das culpas e do cárcere punitivo do
carbono. Flutua livre e suave nos infinitos recônditos
do universo inimaginável. Viaja sob o troar dos Pilares
da Criação, onde luzes rasgam as trevas imemoriais dos
novos mundos da gênesis primordial. A maravilha da
Criação segue gerando novos corpos celestes, estrelas
de nêutron, gigantes vermelhas, sistemas binários, cons-
telações e nuvens de gases que nascem do mais puro
caos. Observa espantado a magnificência de todo o orde-
namento universal, apesar da fúria e do caos parido na
gélida escuridão. Onde estás agora nada é como imagi-
namos, pois a determinação é para que tudo permaneça
vedado e guardado aos olhos humanos, permanecendo
sempre no mais profundo dos mistérios. O sábio lugar
onde repousam as palavras divinas, o amor transcen-
dental, a morada dos deuses que alimenta a alma sen-
sível dos poetas
Fique em paz na eterna luz das estrelas camarada
Fíódor.
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