Daniela Cassinelli

3 poemas nesta seleção

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De que são feitas as casas
que moram dentro desta casa?
Casas de sonho
de bonecas
de areia
escorrendo
dia após dia
das arestas
Iluminada pelo breu do luto,
trançada de vulto e vácuo
Escada em espiral, bromélias
        barcos naufragados cer
        nos cantos dos quartos
O escritório do avô:
camas
livros
fatos revelados
em câmera lenta
O próprio avô, fantasma, passeia no espaço:
de quando em quando ajeita um quadro
As salas, os sofás, os santos
a louça azul chinesa –
camadas geológicas
impressas na madeira
(a família, ainda a mesma?)
Xícaras, bolos, rabanadas
Sobre as mesas, candelabros
    velas acesas
    taças de cristal
O som das musiquinhas do Natal
O seio costurado da avó
O silêncio aguado do pai
Os gestos justos da mãe
De que são feitas as casas
que gestam as gerações?

RIO DE JANEIRO, 28 DE OUTUBRO DE 2025

O coração dispara
o metal frio das balas
atravessando o corpo
de um poema impossível

As aveninas das palavras
paradas em silêncio apavorado
pólvora espalhada
num intrincado mapa
de espanto e míssel

Recolho as cinzas de
um poema que não foi
regresso à casa
no antes da palavra
adormeço no caos

Sonho com peixes
escorregadios
de puro susto e terror
o poema um fantasma
que me assombra pela manhã

UM POEMA SOBRE UM POEMA

à William Carlos Williams

Um poema sobre um cachorro
É um poema sobre um cachorro

E um poema sobre um poema
É um poema sobre um poema

Mas não só
Visto que late
silêncios ritmados

Abana o rabo
espantado
com sua própria nudez

Cheira o avesso do verso
Apalpa a palavra da vez

O inverso do verso
É sorver o universo?

Quem sabe, talvez?
Quem se importa?

Volta a lamber seus planetas
E deita-se no batente da porta.

As estrofes foram organizadas para preservar a leitura do PDF original.

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